O Burnout dos treinadores de cães

O texto original deste artigo foi escrito em duas partes no jornal Os Bichos, em Abril de 2019. Esta versão aqui publicada foi atualizada e alargada pelos autores. Em ambas versões, o artigo foi escrito em sinergia com Eneida Cardoso, psicóloga clínica e treinadora de cães na Conectacão (www.conectacao.pt). Muito obrigado, Eneida, por este apoio técnico.

O treino de cães nos últimos oito anos teve um crescimento significativo a nível social. Este boom pode ser estudado em diferentes perspectivas, onde eu destaco a necessidade social primária e a complementar. A necessidade primária resulta da necessidade das próprias famílias em entenderem os seus cães e procurarem por um auxílio mais interventivo; e a complementar, resulta da necessidade que a própria indústria pet (em crescente expansão) criou na sociedade para a compra de produtos (a maioria desnecessária) e onde os treinadores são personagens complementares para a funcionalidade dos mesmos. 

Porém, este boom está condenado desde o início a partir do momento de  em que não existe qualquer legislação da actividade. Na realidade actual, para se ser treinador basta um indivíduo apenas intitular-se como tal sem conhecimento ou formação na área. Por vezes, a “formação” é feita pelo conhecimento empírico, por ler um livro, ver um DVD, participar num seminário ou noutro evento de curta duração, ou indivíduos de outras áreas que se firmam no ensino canino.


Nos meus trabalhos na área da antrozoologia aplicada à modificação comportamental, defini estes padrões como “fashionism técnico”, um extenso trabalho de pesquisa que eu apresento nas minhas formações a profissionais, e que posso descrever resumidamente como um padrão de acções e termos dentro da área de treino animal que seguem as tendências sociais e económicas do momento, podendo ser permanentes, temporárias ou adaptativas.

Esta falta de legislação cria, na realidade social actual, um descontrolo nas ofertas de serviços e formações, algumas delas com o uso erróneo da palavra ciência e de títulos académicos, a nova tendência, mas que não têm nenhum académico com formação na área a ministrá-las ou o devido reconhecimento. Um efeito bolha está a criar-se com consequências catastróficas, sem um mínimo de questionamento social, que está condicionado a uma realidade virtual de cores, apelo aos sentimentos e do politicamente correcto. 

O ensino social dos cães difere de alguns modelos de ensino ainda em vigor. O mundo do treino canino, essencialmente, está envenenado com as consequências do background de experiências (militares, desportivas) que destroem e desprestigiam esta actividade tão essencial na sociedade actual. Esse próprio background criou a mentalidade de “resultados”, “medalhas” e, de momento, um boom de publicações em redes sociais, resultado da pressão social dentro da comunidade de treino, como um requerimento para se ser um “profissional”. Por outro lado, o uso abusivo do nome “ciência”, fez da mesma uma vassala aos interesses profissionais, e uma máscara à ignorância e ao permanente desdém da sua essência e dos conceitos científicos, que foram sequestrados e adulterados em nome do politicamente correcto e das agendas de grupos extremistas autointitulados “especialistas”.

Contudo, o problema consegue ir ainda mais além. Do contacto directo que mantenho a nível profissional com vários treinadores e estudantes das variadas áreas da componente animal, registo um aumento de um padrão de queixas relativamente à actividade que exercem, principalmente na área de treino canino. A principal é o relacionamento com os detentores de cães. Dentro deste tópico, saliento o facto desses treinadores não terem tido um acompanhamento prático durante e, principalmente, após as formações, sentindo-se inseguros e não preparados para quando as mesmas aparecem, inclusive situações que ultrapassam a competência do treinador, mas que o mesmo não foi instruído dos limites das suas competências.

Por outro lado, a facilidade com que se consegue um título, faz crer que qualquer pessoa tem uma capacidade inata de ser um profissional. Discordo completamente. O “gosto pelos animais” ou ter “crescido no meio de cães” não é um requerimento único. Estamos a falar de seres vivos, com individualidades específicas, num ambiente não natural e com outra espécie (nós) a ditar o que é melhor para eles, em prol do seu “bem-estar”.

Estou atento a este assunto e empenhado especificamente na criação de soluções dentro das minhas competências desde os últimos sete anos. Como resultado, desenvolvi ferramentas empíricas e adaptei matérias de outras de áreas profissionais das quais tive formação, de forma a dar um apoio mais directo a esta realidade, a treinadores, estudantes da área animal e como complemento a profissionais de outras áreas com quem trabalhamos em conjunto e que necessitam de estar cientes desta realidade (psicólogos e veterinários maioritariamente). É minha convicção de que a formação de profissionais deve abranger várias áreas das ciências sociais e naturais, não estando restrito somente às actuais técnicas padrão de treino e à manipulação científica em prol de éticas falaciosas que sempre pendem para o favorecimento de interesses e agendas pessoais.

No entanto, também é importante a sinergia com outros profissionais para a criação de mais soluções.

Em contacto com a psicóloga clínica e treinadora de cães Eneida Cardoso, que também estuda e investiga esta situação há algum tempo, decidimos escrever este artigo com as nossas pesquisas, conhecimento técnico e, mais do que expôr a nossa preocupação, alertar para este problema sintomático, que necessita de uma acção rápida. Abaixo, o artigo foi escrito em conjunto.

As competências relacionais surgem nestes momentos, como uma importante componente técnica que falha muitas vezes na maioria dos profissionais que trabalham com cães. A exigência da profissão em si vai muito mais além do comportamento animal – as relações humanas, a assertividade, uma boa capacidade de comunicação verbal (sem tecnicismos e “extrema cientificidade”) e a capacidade de empatizar com as pessoas são ferramentas cruciais nesta área, que muitas vezes não existem nestes profissionais. Paralelamente a isso, temos também a própria dificuldade e/ou incapacidade do profissional em lidar com a frustração, quer causada pela relação com os detentores dos cães, quer mesmo com os resultados alcançados. Mesmo em profissionais extremamente competentes, estas dificuldades surgem, a diferença é que o nível de consciência das mesmas é valorizado, levando muitas vezes ao fenómeno de burnout – muito característico das áreas sociais e de saúde.

O não possuir estas aptidões sociais e profissionais (e mesmo quem as possui), tem os seus efeitos na prática diária, mas também, na própria estabilidade emocional do treinador. E, aliadas a estas características relacionais, surgem as próprias idiossincrasias de cada pessoa, a sua própria estrutura mental, personalidade, etc.

A verdade é que a profissão de treinador é muito mais exigente do que à primeira uma vista parece; não é só trabalhar com os cães/animais. Diria até, que a parte humana tem um peso muito maior do que a parte animal. Temos de ter consciência que se não se conseguir chegar às pessoas que nos procuram, nunca conseguiremos ajudar aquele cão que veio com elas – porque queiramos ou não, são essas pessoas que possuem em primeira instância todo o poder para operar no sentido da mudança.

As expectativas são também outro aspecto muito importante – quer as expectativas do (aspirante a) treinador, quer as expectativas dos detentores de cães. Começando pelas primeiras – estas falham logo no início, quando há a expectativa de ser treinador de cães e a própria visão pessoal que cada um tem da mesma. Parece haver uma tendência generalizada por parte de muitas pessoas quando ao decidirem por esta área só se lembrarem de uma parte da equação – os cães – as pessoas são desvalorizadas ou até mesmo esquecidas.

As expectativas dos detentores são autênticos desafios. E possuir a capacidade de desconstruí-las e transformá-las em possibilidades realistas é o mais difícil. Para o conseguir, o treinador tem de ter a capacidade de as compreender, e delinear em conjunto objectivos claros e que sejam possíveis de alcançar – para aquele cão e para aquela família.

Outra característica que parece dificultar ou facilitar, caso se possua, é a capacidade de adaptação e flexibilidade e até de algum improviso; todas as pessoas são diferentes e aliando esta diferença às distintas formas como analisam e interpretam as situações, às características daquele cão e a forma como se relacionam, irá ditar ou delinear um caminho a seguir. Ou seja, cada pessoa, família e cão que procura um treinador é diferente, logo a forma de actuar, terá de ser adaptada a quem se tem à frente – e com isto os métodos, a linguagem, terão de ser adaptados para que se consiga passar uma mensagem. E depois, quando se trabalha com vários elementos daquela mesma família o desafio torna-se complexo – porque a chave é que todos, dentro da sua individualidade consigam ser suficientemente coerentes e consistentes para não confundir o cão.

Em termos da situação actual no nosso país em relação à profissão de treinador e à não regulamentação da mesma, para o profissional responsável e ético, isto causa um desconforto enorme, assim como uma sensação de desamparo constante. Ter um emprego sobre o qual não existe um código de ética, direitos e deveres sobre uma classe profissional cria uma espécie de, e passamos a expressão, “república das bananas”, onde cada um faz o que bem entende, inclusivamente colocando pessoas e animais em risco, por não possuir, de todo, as competências necessárias. 

Temos por um lado os treinadores, popularmente conhecidos como “velha guarda”, que alegam anos de serviço como certificação de que são profissionais competentes, mas que não existe uma actualização dos conhecimentos em relação à realidade social do ensino canino. Salientamos que não é desprestígio nenhum. É uma questão de evolução no sentido prático da palavra, que significa mudança. Como já mencionado, a realidade de treinar cães para efeitos operacionais ou de desporto é diferente do ensino social de cães de companhia, tendo em consideração algumas estatísticas apresentadas sobre a realidade dos detentores e dos seus cães, e, ao generalizar metodologias de diferentes áreas, poderão criar situações de risco, a partir do princípio que todas as situações devem ser analisadas individualmente e devidamente adaptadas – para as quais não existem responsáveis.

Por outro lado, temos o jovem adulto que decide ser treinador de cães momentaneamente fazendo uma formação de fim-de-semana ou de meia dúzia de horas e auto-intitulando-se a partir desse momento como treinador ou até “perito e especialista”, onde o uso da retórica populista sem teor científico, já usada inclusive por vários profissionais com longos anos e experiência, dificilmente consegue criar uma distinção entre ambos. 

Numa outra terceira facção, temos aqueles que mesmo sem a possibilidade de certificação, se dedicam a fazer formação com frequência e a actualizarem os seus conhecimentos diariamente, procurando fontes científicas além fronteiras e aliando a isto algo crucial – a prática. Todos estes pontos são desafiadores num um país que ainda valoriza títulos, aparências nos media, comoção social e o carisma, acima da racionalidade, da competência prática e do know-how.

Esta terceira facção, além de questionar a realidade, procura bases sólidas que suportem a sua prática e lhes permita uma compreensão cada vez mais abrangente da situação concreta com que se deparam e levam a cabo um esforço árduo para fazerem um trabalho sério e íntegro – estes últimos são, claramente, os que estão mais susceptíveis ao burnout ou desgaste emocional advindo desta profissão. Na verdade, trabalhar como treinador de cães, nestes moldes, tem imensas semelhanças com profissões ligadas a áreas sociais e de saúde, quer ao nível das exigências individuais, quer ao nível da responsabilidade sobre a população com quem se trabalha – diria até que tem muitos pontos em comum com intervenções sistémicas (terapia familiar, área comunitária, etc) .

Sobre o burnout

O burnout pode ser definido como um estado persistente e negativo, encontrado em pessoas “normais” e que não sofrem de nenhuma psicopatologia, o qual se caracteriza pela dispersão, pela falta de motivação e pelo desenvolvimento de atitudes e comportamentos disfuncionais no trabalho. A condição psicológica desenvolve-se gradualmente, mas permanece despercebida por algum tempo, resultando em uma dificuldade em separar as intenções e a realidade no trabalho. Encontram-se fortes correlações entre:  burnout e stress no trabalho; burnout e depressão e burnout e fadiga crónica.

Factores identificados como precipitantes de desgaste emocional ou burnout em treinadores de cães:

  • Frustração advinda dos limites dos resultados com as famílias / detentores;
  • Incapacidade em fazer uma separação clara entre o lado profissional e pessoal;
  • Extrema ligação emocional aos casos – incapacidade em manter a imparcialidade/objectividade;
  • Revolta/desamparo dentro da comunidade de Treino Canino – ambiente predominantemente de competitividade e não de cooperação e interdisciplinaridade (que qualquer área de intervenção humana, relacional ou social exige);
  • Expectativas irrealistas do profissional relativamente ao que é efetivamente ser Treinador de cães;
  • Ausência da regulamentação da actividade de treinador de cães;
  • Inexistência de um código de ética da actividade;
  • A aplicação da legislação ser ineficiente, assim como a existência dos devidos recursos e respostas locais na causa animal (maus-tratos ou negligência, abandono, crenças culturais enraizadas);
  • Problemas de comportamento dos cães que muitas vezes vêm associados ou estão interligados com perturbações do foro psicológico dos detentores, assim como dificuldades relacionais no seio da família.


Como um efeito bola de neve, estes e outros factores criam sentimentos de revolta, de desamparo dentro da comunidade do treino canino que criam esses quadros de depressões, esgotamentos e burnout, que estão a fazer com que muitos colegas (e amigos) estejam a desistir da actividade, a afastarem-se progressivamente ou a fazer da mesma uma segunda opção. 

Na nossa opinião, uma legislação com fins educacionais, não ideológicos, efectiva da actividade é imperativo assim como uma triagem imparcial a todos os que exercem a actividade actualmente. É necessário um estudo e discussão profunda entre profissionais de várias áreas, porque o relacionamento interpessoal na actividade do treino de animais de companhia engloba uma intrusão tanto familiar como à própria mentalidade social, e é necessário formar-se, capacitar-se e preparar profissionais para esta realidade que vai muito além do ensino social canino.

Existem extensos tópicos que deveriam ser tomados em consideração. Desde os requisitos prévios para as formações, um conteúdo programático realista que siga uma componente pessoal, técnica e individual, até à necessidade deste assunto ser discutido com entidades internacionais e de não cingir-se apenas às limitações nacionais sobre a temática. 

Para todos os profissionais que estejam no silêncio com estes problemas, deixamos uma mensagem de quem, como vocês, trabalha diariamente de forma profissional nesta área: vocês não são sozinhos. Todos nós somos essenciais e temos vários pontos em comum dentro de possíveis discordâncias em alguns assuntos. São esses pontos em comum que devem ser explorados e redirecionar-nos para quem realmente trabalhamos. Nós precisamos de vocês e, acima de tudo, eles precisam de nós. 

Demonstramos assim a nossa preocupação sobre este assunto ainda não muito falado, mas que é real e que necessita urgentemente de ser discutida publicamente e tomarem-se acções práticas entre todos os que, de forma profissional, actuam na área.

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