Petição sobre a corrida de galgos: Uma visão crítica

Os textos deste artigo são a compilação de duas publicações minhas no facebook em Novembro de 2019 e Junho de 2020.

Peço desculpa pelo longo texto, mas torna-se díficil permanecer em silêncio com tanto absurdo, estando em causa o verdadeiro “bem-estar” dos animais. O analfabetismo funcional e o efeito Dunning-Kruger teve um rápido crescimento nos últimos 7 anos no mundo dos cães quando ficou evidente que era um mercado altamente rentável tanto a nível financeiro como a nível de promoção pessoal.

Este processo torna-se perigoso e questionável a partir do momento que estamos a utilizar outros seres vivos para esses fins. Mais perigoso quando se assinam petições sem pelo menos as ler, já nem digo analisar. O mediatismo e aparições públicas não significa conhecimento sobre o assunto. Já tivemos (e temos) vários exemplos disso.

Em primeiro lugar, quero deixar claro que não tenho nada contra os intervenientes da petição. Nem sei ao certo quem são. Estou a analisar factos e não pessoas. Não estou em Portugal, a minha vida profissional não é em Portugal, e não tenho qualquer tipo de vantagem ou benefício ao debruçar-me sobre este tema, a não ser a minha missão de vida para com as outras espécies e dever para com quem segue o meu trabalho.

Em segundo lugar, quem me conhece sabe que gosto de definições, principalmente os meus estudantes, e análises críticas pragmáticas, que irei fazer abaixo. Não sou adepto nem apoiador de qualquer tipo de desporto que envolva o uso de outras espécies. É uma opinião pessoal e não preciso de justificação para o que não gosto, mas não é por isso que vou deixar que as minhas opiniões e gostos influenciem as análises sobre esses temas.

Em terceiro lugar, sou contra toda e qualquer proibição como o caminho mais fácil para se resolver uma situação. Este caminho de proibições é algo que está a tornar-se banal e é um grande condicionante tanto para o pensamento critico individual, como para a ciência per se. Em quarto, quero alertar sobre a completa lavagem cerebral que a sociedade é vítima com o apelo constante ao lado emocional das pessoas, através do uso de palavras como “emoções”, “bem-estar”, “vínculo”, etc.

A indústria pet é um polvo com tentáculos em várias áreas, estando inclusive a financiar estudos em universidades, entre outras áreas. Irei debruçar-me sobre este assunto em pormenor no futuro, com várias referências a comprovar as afirmações acima (e do próximo parágrafo), e em especial da ideia de que “os cães nasceram para estar em casa”.

Por fim, e antes de avançar para a análise da petição, deixo a minha preocupação de que tantos especialistas e ditos cientistas, com títulos estranhos ao olhos da ciência, apoiam este e outros assuntos, desprezando os princípios básicos da ciência e do método científico.

A “ciência dos cães” está a passar por um caminho perigoso de parcialidade e de interesses.

Sobre a petição (agora iniciativa legislativa) contra a corrida de galgos:

1- “A objetificação dos animais, no âmbito utilitarista, é uma visão ultrapassada que não tem em conta o interesse maior do animal”. Acredito que os autores ao escreverem “âmbito utilitarista” referem-se ao pensamento filosófico. Se sim, vamos primeiro entender o que é o utilitarismo. “O utilitarismo é uma corrente filosófica que tem como princípio ações que produzem o maior benefício e utilidade para todos, e é usada para descrever qualquer posição ética que julga se uma ação é certa ou errada ao considerar se as consequências da acção são boas ou más. Longe de uma visão utópica, o utilitarismo concentra-se nas consequências e não nas intenções. Calcular as consequências positivas ou negativas das ações permite-nos ter um raciocínio crítico mais desenvolvido e próprio, fugindo de sistemas éticos com base em regras de certo x errado”. De salientar que o utilitarismo é algo presente na nossa vida tanto a nível pessoal como profissional e não tem absolutamente nada de errado na sua definição. Afinal, qual é a visão que os profissionais utilizam para estabelecer preços de serviços? Qual a visão que utilizam para situações complexas? E qual a visão utilizada para a realidade assustadora dos canis de adoção? Será o direito dos animais? Se esta visão é algo ultrapassada, gostaria que os autores desenvolvessem a afirmação dos mesmos e que informassem qual o tipo de visão utilizada nesta petição, visto estarem a avaliar as consequências desta prática.

2- “Múltiplos estudos científicos, desenvolvidos, designadamente, pela American Society for the Prevention of Cruelty to Animals (ASPCA), pela People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), pela Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA), pela Animals Australia, entre outras organizações com atuação mundial, assim como investigadores na área do bem-estar animal, alertam para os riscos que advêm da utilização de cães em corridas(…)”. Eu fiz uma rápida pesquisa e encontrei estes links:

ASPCA:
https://www.aspca.org/animal-cruelty/other-animal-issues/greyhound-racing

https://www.aspca.org/about-us/aspca-policy-and-position-statements/racing

https://www.aspca.org/news/its-way-past-time-end-greyhound-racing-america

https://www.aspca.org/news/election-2018-huge-wins-farm-animals-and-greyhounds

https://www.aspca.org/news/aspca-grey2k-usa-release-national-report-greyhound-racing

RSPCA:
https://kb.rspca.org.au/knowledge-base/what-is-the-rspcas-view-on-greyhound-racing/

https://kb.rspca.org.au/knowledge-base/what-are-the-animal-welfare-issues-with-greyhound-racing/

https://kb.rspca.org.au/knowledge-base/rspca-policy-c06-greyhound-racing/

https://kb.rspca.org.au/knowledge-base/is-the-use-of-live-baits-and-lures-in-greyhound-racing-illegal/

Acredito que os autores da petição são académicos, e como tal deveriam colocar referências das suas afirmações. Como académicos, também sabem a diferença entre um estudo científico, artigos populares de blogs e declarações de posição (position statements). Assim sendo, só encontrei os dois últimos (position statement e artigos populares de blogs), sendo que alguns constantemente pedem donativos e afiliações.

Poderão os autores da petição publicar os estudos científicos que afirmaram na petição? Em toda a petição não encontrei referências sobre a situação em Portugal, visto que as entidades acima não operam em Portugal, segundo tenha conhecimento. Poderão os autores da petição publicar as referências sobre a realidade em Portugal?

Ainda sobre os riscos mencionados, queria salientar três:

2.1- “Ausência de enriquecimento ambiental e falta de socialização com outros animais e humanos, resultando e, podendo resultar em problemas comportamentais graves como compulsões, comportamentos repetitivos, apatia, latidos em excesso, ansiedade de separação, entre outros;” Segundo as nossas estatísticas (Dinanarca), o problema número um estão relacionados com os cães sozinhos em casa, e a grande maioria apresenta esses comportamentos. Vamos proibir as pessoas de terem cães? Ou vamos educá-las? E os cães que estão em canis de adoção, que também apresentam esses comportamentos?

2.2- “Utilização de métodos de treino com recurso à força, ao excesso e à violência, promovendo maus-tratos e esforço físico excessivo(…)”. Lamento informar que isso acontece em todos os tipos de desportos caninos, e no treino de cães nas forças policiais. E sei por conhecimento de causa. Vamos proibir todas as actividades desportivas e o uso dos cães nas forças policiais?

2.3- “ Administração de substâncias proibidas ou não registadas, promovendo o tráfico de estupefacientes”. Esta afirmação é importante e grave. Está a ocorrer alguma investigação pelas autoridades policiais competentes?

3- “Posto isto, o que está em causa não é os cães correrem livremente, consoante as suas vontades e necessidades, acompanhados, ou não, pelos seus tutores. É correrem dopados, com coleiras de choque, sofrerem maus tratos antes, durante e após as corridas, serem abandonados, encarcerados e forçados a dar sangue o resto da vida, ou mesmo abatidos quando já não servem este propósito de entretenimento humano. Os galgos começam os treinos com 2/3 meses de idade. Os mais velhos corredores têm apenas 2 anos de idade. Ao longo das suas curtas vidas, são submetidos a treinos violentos e desgastantes para a saúde, a vidas miseráveis e indignas, culminando muitas vezes na morte ou no abandono. Salientam-se nesta atividade dois nítidos incumprimentos da lei – maus tratos a animais e abandono destes – os quais pretendemos extinguir com esta Iniciativa Legislativa de Cidadãos”. Novamente, precisamos de referências para as afirmações dos dois primeiros parágrafos. Para o terceiro, já existe legislação para maus tratos e abandono.

4- “Segundo dados estatísticos fornecidos por associações de resgate animal, todos os anos são recolhidos cerca de uma centena de galgos, abandonados das ruas, por todo o país”. Mais uma vez, precisamos de links com referências para tais afirmações.

5- “Os galgos, “na grande maioria, chegam extremamente assustados, não se deixam apanhar, exceto quando já estão muito debilitados”. Questiono se o mesmo não se passa com outros cães de outras raças ou SRD, ou na sua grande maioria, ou se é uma exclusividade para esta raça?

6- “É tido como verdade que todas as corridas de cães em Portugal contam com a presença do médico-veterinário municipal, de forma a cumprir a legislação em vigor no que respeita a bem-estar animal, para efeitos de inspeção de documentação dos cães participantes, do estado físico em que se encontram e consequente autorização para participação nas corridas. No entanto, numa das provas do campeonato nacional em Vila Nova de Famalicão, em abril de 2019, o Jornal Público testemunhou que não havia nenhum médico-veterinário, e que nem mesmo a câmara municipal sabia da existência do evento”. Esta afirmação revela-se inconsistente e confusa. Se a presença do médico-veterinário municipal está presente para garantir o cumprimento da legislação do bem-estar animal, querem os autores da petição dizer que as mesmas estão garantidas? Para o segundo parágrafo, querem os autores da petição dizer que, partindo do pressuposto que a lei é cumprida, apenas nesse evento não estavam garantidas o cumprimento da legislação do bem-estar animal? Peço uma melhor clarificação sobre este ponto.

7- “Estabelecendo uma relação numérica entre os factos supramencionados e as respetivas leis em incumprimento, note-se o seguinte: “ O ponto um e dois desta citação é contraditório com a afirmação inicial da própria petição “Salientam-se nesta atividade dois nítidos incumprimentos da lei – maus tratos a animais e abandono destes – os quais pretendemos extinguir com esta Iniciativa Legislativa de Cidadãos”. Como dito no meu ponto 3, a legislação já existe, o que pode estar em falta é a sua correcta aplicação.

8- “O facto de as corridas de cães serem legais em Portugal confirma a ausência de fiscalização no que respeita à proteção dos animais, e agrava a crescente banalização do incumprimento da lei, no sentido de que a lei se faz cumprir em alguns (poucos) casos, mas são abertas exceções sem qualquer razão lógica, científica ou passível de aceitação legal”. Não é só na corrida de galgos, infelizmente. Esta petição tem pontos aplicáveis a todas as actividades desportivas e competitivas que envolvem cães. Vamos proibir todas? Ou será que é somente esta que não está sob a alçada de um grande clube? Porque não abrimos de vez a caixa de pandora do mundo da competição? E do treino efectuado pelas forças policiais? Afinal, é o “bem-estar” de TODOS os cães que está em causa, certo?

9- “Artigo 2.º Definição Entende-se por “corridas de cães” todos os eventos que envolvam a instigação à corrida, por via de isco vivo ou morto (recorrentemente lebres), ou mesmo sem isco, de animais da família Canidae em pistas, amadoras ou profissionais, instalações, terrenos ou outros tipos de espaço, públicos ou privados, com fins competitivos e/ou recreativos”.

Aqui entramos num caminho bastante perigoso e gostaria de ler a opinião de algum jurista, vejamos:

9.1- “Animais da família Canidae”. Creio que os autores queriam escrever Canis lupus familiaris. Desconheço corridas com lobos, raposas, coiotes e chacais. Deixo este link com a descrição da família Canidae: https://animaldiversity.org/accounts/Canidae/

9.2- Esta definição de corrida de cães, aplica-se a todas as áreas. Instigar significa motivar, estimular. Logo, atirar bolas, discos, ou outro tipo de objecto (sem isco), num jardim ou no quintal da nossa casa, é crime, assim como a prática de Flyball e similares.

9.3- O ambiente por si pode ser a própria motivação para o cão consoante a influência fisiológica que o mesmo possa ter no indivíduo (Hull’s Motivation Theory). Logo, esta definição é contraditória com a afirmação anterior desta petição, e passo a citar, “No caso dos cães, e dentro desta temática, é seu interesse maior correr livremente e não sob coerção humana (…) o que está em causa não é os cães correrem livremente, consoante as suas vontades e necessidades, acompanhados, ou não, pelos seus tutores”.

9.4- Ainda na citação “(…)o que está em causa não é os cães correrem livremente, consoante as suas vontades e necessidades, acompanhados, ou não, pelos seus tutores”. Se não está, estará com o artigo 2. A lacuna legal da interpretação desta definição é variada, confusa e abrange, por definição, todo e qualquer tipo de ação de movimento do cão. Afinal, qual é a velocidade que o cão deve movimentar-se para que seja considerada corrida? Se um cão for instigado por um esquilo ou um gato a passar, quem é o culpado deste crime? Vamos proibir tanto os encontros de cães da raça Galgo como os soltar para correrem de forma recreativa, instigados pelas condições da altura?

Conclusão: Deixo para vossa reflexão os pontos acima e que decidam por vocês como pretendem que seja o futuro dos cães de companhia, que só existem porque são úteis para nós. Sim, a sobrevivência dos cães na nossa sociedade é exclusivamente porque têm alguma utilidade para o ser humano, tanto no campo pessoal, social, económico e político.

O bem-estar dos animais deve ter em conta a espécie e o indivíduo, não o que achamos ser o politicamente correcto. Existem também as questões genéticas que são desprezadas e, novamente, faz-se uma lavagem cerebral à população. Mais perigoso quando são os especialistas a afirmarem. Um pormenor interessante é o contraste entre esta petição e esta que venho a publicar. Certamente teria mais êxito se o nome “revisão” fosse trocado por “proibição”.

Comentário adicional à publicação

Enviaram-me a publicação da promotora principal da petição. Existem alguns pontos da publicação que me chamaram à atenção e seria de interesse público que fossem clarificados: 

“Desta forma, os cidadãos que se têm manifestado contra a subscrição desta ILC, afirmando que se pretende proibir “atirar a bola ao cão”, “jogging com o cão”, ou outras atividades semelhantes que envolvam corrida de canídeos para o seu bem-estar ou para fins clínicos (ex: fisioterapia), estão a deturpar o objetivo desta ILC: acabar com os maus-tratos a cães de corrida no nosso país, que existem, estão gravados em vídeo, estão fotografados, estão registados em vários hospitais, clínicas e associações de norte a sul de Portugal. Pedimos por isso que toda a desinformação que têm procurado propagar vos pese na consciência o mais rapidamente possível, e que se juntem a este movimento, se realmente gostam de animais e querem o seu bem-estar”.

Em primeiro lugar, informo que todas as questões da minha publicação original ainda não foram clarificadas por ninguém, e pelo que constantei na publicação da citação acima, todas as pessoas que questionaram ou foram insultadas por outras pessoas, ou não obtiveram resposta da promotora principal da petição.

Creio que a transparência deveria ser a matriz desta petição.

1- “(…)estão a deturpar o objetivo desta ILC: acabar com os maus-tratos a cães de corrida no nosso país, que existem, estão gravados em vídeo, estão fotografados, estão registados em vários hospitais, clínicas e associações de norte a sul de Portugal”. 

1.1- Se estão a deturpar, por favor clarifiquem o artigo 2. 

1.2- Estou confuso com esta afirmação e peço novamente clarificação. Querem acabar com os maus tratos a cães de corrida. Completamente de acordo, mas quais são os critérios que estão a basear-se para dizer que ao acabar com as corridas acabam com os maus tratos? Ou será que uma legislação que regulamente as corridas teria uma maior eficácia? Digo isto porque temos vários exemplos não só nas variadas áreas do mundo dos cães, como também com o hipismo e actividades similares. Vamos utilizar esses critérios para proibir todas as actividades? Tenho curiosidade em saber como é que isso funcionará.

1.3- Se há registos, por favor criem uma pasta com todos os registos, assim como os estudos científicos que referiram e que não encontrei, e uma estatística comparativa de ambos registos e estudos entre a raça Galgo e as restantes (incluindo SRD). É de interesse público mostrar a triste realidade e somente com factos de acesso geral será possível mudar a realidade e tirar todas as dúvidas.

2- “Pedimos por isso que toda a desinformação que têm procurado propagar vos pese na consciência o mais rapidamente possível, e que se juntem a este movimento, se realmente gostam de animais e querem o seu bem-estar”.

Este é o argumento mais banalizado e utilizado no mundo dos cães. O apelo às emoções como forma de manipulação, sem que seja necessário validar os factos. É fácil e rápido.

2.1- Se há desinformação, por favor clarifiquem todas as dúvidas colocadas.

2.2- “(…)se realmente gostam de animais e querem o seu bem-estar”. Novamente, estou confuso. Só gostamos de animais e do seu bem-estar se aderirmos a um movimento sem questionar e sem querer melhorar um documento que vai influenciar directamente uma espécie? Isto porque não vejo nenhuma das questões na vossa publicação a ser respondidas, mas sim ignoradas. Eu gosto de animais, mas não sigo correntes ou movimentos de qualquer tipo.

Assinarei uma petição que mostre referências, estatísticas e os registos mencionados. Porque devo eu acreditar somente no que escrevem? Não é permitido questionar nada? É assim que funciona o “gosto pelos animais” agora?


Segunda Publicação

Continuação da publicação de novembro de 2019 que fiz e que partilho agora. Novamente, peço desculpa pelo longo texto. E assim se comprova que a manipulação social através do apelo às emoções é o futuro.

Uma proposta vazia na argumentação e cheia de incoerências nas afirmações. Uma proposta que poderia ter sido trabalhada e aprimorada de forma a não existirem dúvidas nos seus tópicos, apenas seguiu ideologias populares, sem direito a discussão.

As minhas dúvidas na publicação que partilho não foram clarificadas e quem fez questões similares na página dos autores da petição foram bloqueados e as perguntas apagadas.

Notícia em causa: https://www.publico.pt/2020/06/20/politica/noticia/iniciativa-cidadaos-proibir-corridas-caes-ja-consegue-discutida-parlamento-1921342

A notícia em si omite partes do artigo proposto, realçando apenas o que interessa à polémica. Acredito que a isenção deveria fazer parte do jornalismo actual e não esta manipulação social.

Assusta-me ver que a vida das outras espécies anda a ser decidida desta forma e ignorada através do silêncio de tantas pessoas contra este populismo mas que preferem ficar do lado do politicamente correcto sem questionar.

Assusta-me ver que a “ciência” anda a ser manipulada descaradamente em prol de agendas e interesses de diversos tipos, assim como a banalização da palavra “bem-estar” como forma de status e preenchimento dos vazios de auto-estima, conforme eu venho a mostrar através dos meus artigos e publicações.

Enquanto isso, as raças potencialmente perigosas estão completamente abandonadas de discussão e revisão da lei. Lei essa também resultado de falta de discussão e de argumentação válida conforme eu venho escrevendo desde 2009.

A petição bem estruturada na argumentação foi desvalorizada por muitos, acredite-se, por “ser longa”. A petição: https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT88849

Para que fique novamente bem claro, eu não apoio, não gosto e por mim não existiam corridas de cães e outros desportos que considero apenas de ignorância humana. Não estou em Portugal, não tenho qualquer tipo de negócio em Portugal e não tenho nenhum benefício em debruçar-me sobre estes assuntos. Na verdade, questiono-me se não devo simplesmente abandonar determinados assuntos da minha língua nativa…

Talvez seja hora de redirecionar o meu tempo e energia para outros horizontes. No entanto, fico abismado como o politicamente correcto está a contagiar as pessoas da área, sempre com medo de emitirem uma opinião e de a fundamentarem da forma como eu fiz. Da necessidade de pertencerem a um grupo que as reconheça, que assinam petições sem as ler, sem questionar. Onde publicações como a minha são consideradas como afronta e ao analfabetismo funcional de que sou a favor de corridas.

Nós não devemos ser cegos em ideologias e as proibições serão sempre o caminho mais fácil para assuntos que carecem de uma profunda discussão entre várias entidades e não ficar limitado a um grupo.

Se queremos realmente a mudança, temos de sair da nossa zona de conforto e sermos desafiados com questões e argumentação que nos fazem evoluir enquanto pessoas e profissionais. Vamos estudar, questionar e sair das bolhas que apenas nos limitam o pensamento. O virtualismo está a criar-nos prisioneiros de nós próprios. Vidas não podem andar a ser decididas desta forma.

A diplomacia e o politicamente correcto está a matar cães e todos nós somos cúmplices disso…


Bónus: Direito de resposta a comentário ofensivo

Vou aproveitar os comentários desta publicação para mostrar as provas vivas de analfabetismo funcional, e ao mesmo tempo compilar aqui o que considero necessário. Não gosto de comentários “pingue-pongue” vazios. Até agora, nenhuma argumentação válida ou clarificação dos pontos que mencionei na publicação original. Continuo a aguardar. 

Abaixo, temos um bom exemplo de analfabetismo funcional com uma mistura de ódio e, caso fosse verdade, a completa falta de argumentação e de respeito com quem tem uma opinião contrária. É este tipo de ditadura do politicamente correcto que falo. A citação a seguir foi um comentário feito a uma das partilhas desta publicação. 

Embora seja público e eu já tenha a print e os dados da pessoa, não vou identificar a mesma. “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de a dizer”- Voltaire

“Muito me enoja gente que finge gostar de animais para ganhar dinheiro com os mesmos…este texto deste senhor é asqueroso, é redigido por um egóico que não tem apresso nenhum pela vida alheia, que considera os animais apenas pela sua utilidade humana, e que se deleitou a criticar o texto da petição apenas para alimentar seu narcisismo, se apegando a termos que não foram literalmente bem escolhidos e os criticando de maneira exibicionista e cínica, o que acho um comportamento podre na humanidade…meu total desprezo por este post e esta gente que o aplaude como fãs, talvez pela conveniência da sua posição…”Existem partes curiosas desta citação que terei a ousadia de comentar. 

1- “Muito me enoja gente que finge gostar de animais para ganhar dinheiro com os mesmos…”. É verdade, infelizmente acontece em todo o lado. Então, segundo essa pessoa, é correcto ganhar dinheiro com os animais se gostarmos verdadeiramente deles? Se sim, como conseguimos medir o grau de “gostar”? 

2- “(…)este texto deste senhor é asqueroso, é redigido por um egóico que não tem apresso nenhum pela vida alheia, que considera os animais apenas pela sua utilidade humana”. Vou passar a parte do “asqueroso” e “egóico”, não vou descer tão baixo, lamento. 🙂 Mas a parte do “que considera os animais apenas pela sua utilidade humana” é a prova total de que o texto que escrevi não foi lido. Convido essa pessoa a visitar o meu website e todo o meu trabalho que desenvolvo na área. Sei que será outra ousadia minha pedir uma nova leitura da minha publicação e deste meu artigo, onde a minha vida é precisamente questionar o porquê de estarmos constantemente a utilizar as outras espécies para os nossos desejos: https://rbarata.com/the-trivialization-of-anthrozoology/. Está em inglês, mas poderão ter um auxílio de um plugin de tradução.

3- “(…)e que se deleitou a criticar o texto da petição apenas para alimentar seu narcisismo”. Novamente, não leu o que escrevi. Estou a pedir clarificações sobre a mesma. Se narcisismo é fazer uma análise pragmática, é uma opinião que respeito mas não concordo minimamente. 

4- “(…)se apegando a termos que não foram literalmente bem escolhidos e os criticando de maneira exibicionista e cínica, o que acho um comportamento podre na humanidade”. É curioso que essa pessoa, sendo uma estudante de doutoramento, não considere importante referências, e não somente menções a estudos científicos que não encontrei, a afirmações de uma petição que pode criar uma lei que vai afectar todos os cães. 

5- “(…)meu total desprezo por este post e esta gente que o aplaude como fãs, talvez pela conveniência da sua posição”. E qual é a minha posição? Já fui bem claro que não sou adepto, não apoio e não gosto de desporto ou competição onde se utilizem outras espécies. Não preciso de justificação para o que não gosto. Estou é a fazer uma análise pragmática a este assunto. Algo que todos os académicos (e estudantes a doutoramento) deveriam fazer por respeito à própria ciência. A ciência não pode ter um preço nem uma posição. A ciência é um processo onde mais dúvidas são criadas com uma simples resposta. O tópico da utilização dos cães na sociedade é complexo demais para ser discutido aqui, embora seja um dos meus trabalhos de pesquisa (e reflexão) diários. 

Assim sendo, agradeço toda e qualquer opinião que possa ajudar a clarificar os pontos que mencionei na publicação original. Não sou contra petições. Sou contra ideologias e de ideias vazias. Assinarei uma petição que esteja devidamente sustentada com factos comprovados e com soluções que visem regulamentação, fiscalização, educação e consciencialização. Estamos a falar de seres vivos condenados desde a nascença às leis humanas.

Que o “amor” pelas outras espécies possa se transformar numa discussão séria de ideias entre todos ao invés de ataques infundados que em nada ajudam a causa animal. Pelo contrário, com este tipo de comentários e atitudes, apenas estamos a perder a razão e a passar a mesma para “o outro lado”. Isto vale para todas as áreas do mundo dos cães. Está na hora de repensarmos a forma como se discutem estes (e outros) assuntos.

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