Treino de cães em Portugal- Uma curta e final ponderação

Assisto com preocupação a uma crescente desinformação na área do treino canino. O mais preocupante é que não vejo ninguém a tentar combater isso, mas sim a ignorar ou incentivar. Não sei se não o fazem por medo da inquisição canina e dos grupos onde estão inseridos, ou também por falta de conhecimento dos assuntos.

Como eu considero esse nível de comunicação (não as pessoas) desonesta, permitam-me umas rápidas palavras. Não vou debruçar-me novamente sobre este assunto. Ando a fechar algumas etapas da minha vida, e esta sem dúvida é uma das principais. A minha missão continuará a ser para com os animais (não humanos) e as suas famílias humanas, não para ser aceite dentro de um grupo ou ter likes e partilhas.

Este meu artigo é a minha posição oficial sobre este tópico e convido a leitura antes de continuarem este texto

Ao longo deste tempo publiquei artigos a clarificar conceitos básicos a combater a desinformação em determinados assuntos, com referências científicas a reforçar a minha argumentação, e mostrar aos clientes e profissionais como conceitos básicos são desprezados e manipulados. Tento igualmente contribuir com questões desconfortáveis ao separar a ciência e a moralidade de forma a incentivar o pensamento crítico individual de forma a nos tornar-nos melhores profissionais e, como consequência, pessoas.

A bolha está a formar-se, sendo que o rastilho está a ser a lei das raças PP que, por coincidência, ninguém fala ou discute, mesmo a nível político. Esse rastilho está a ser um jogo de interesses que se arrasta há quase 15 anos. Isto juntando a outros tópicos que incansavelmente venho reportando, auxiliando pro bono instituições e iniciativas sempre que possível, e o resultado é sempre o mesmo: jogo de interesses, a necessidade de protagonismo, acreditarmos no que nos conforta e o preenchimento da falta de auto-estima com likes.

Sim, a linguagem utilizada importa e mostrar na prática de que é possível fazer a diferença. Não é demagogia. É tudo uma questão de atitude. Atitude essa que leva tempo a mudar e exige uma auto-disciplina, coerência e um constante desafio ao nosso pensamento crítico. O conhecimento técnico deu lugar a diplomas e certificados de agendas ideológicas, algumas camufladas em nome da diplomacia, e ao politicamente correcto.

Quando confrontados, a desculpa é sempre a mesma: “Os clientes não entendem”. 

Como profissional, eu faria uma longa reflexão se esta é de facto a minha área de competência no dia em que eu não fosse capaz de explicar e clarificar conceitos básicos da minha área aos clientes, e preferisse utilizar semântica e etiquetas para aquilo que eu faço.

A palavra “ciência” tem sido usada e abusada em contextos onde ela própria contraria as afirmações dos intervenientes. É impressionante o desconhecimento de termos básicos que, quando não roubados de outras áreas científicas, são deturpados e rapidamente criam ainda mais confusão.

Para terminar, recordo-me de duas palestras que dei em 2017, uma no Porto e outra em Lisboa, onde mostrei claramente que as etiquetas de “100% force-free”, “não usamos castigos”, “educação amável porque castigos não funcionam”, e similares, são enganadoras tanto para os clientes como para quem os utiliza para a promoção dos seus negócios. Esses profissionais também usam castigos e aversivos na sua definição técnica embora não o assumam. Por outro lado, também mostrei que quem diz que usa correções na verdade utiliza coerção e, em alguns casos, violência. Ninguém tentou argumentar o contrário perante os factos apresentados, esses sim científicos e disponíveis para qualquer pessoa proactiva. E com preocupação vi a surpresa de alguns ao descobrirem isso. 

É um caminho longo e aquilo que faremos é somente deixar as sementes para as futuras gerações. Para se trazer seriedade a uma possível profissionalização da actividade é necessário apostar nos profissionais nacionais e deixarmos a tendência medíocre de somente olhar para os de fora, onde a realidade é diferente e muitas vezes a própria cultura não permite absorver a essência do conhecimento passado.

Caberá a nós decidir o que queremos ser e termos a honestidade de o assumir. De momento só vejo duas alternativas: 

1- Continuar a despejar o politicamente correcto às pessoas com informação que não corresponde à realidade, ensinar alguns truques e seguir o checklist ideológico. 

2- Dar um conhecimento real às pessoas, clarificar tudo que for necessário e mostrar na prática alternativas adaptadas aos indivíduos e que farão a diferença nas suas vidas.

A decisão aos pontos acimas é individual. Já a consequência dessas decisões afetará directamente a qualidade e a própria vida de uma outra espécie. Tanto no real, como no virtual.

Espero que as possíveis provocações aqui escritas vos façam reflectir fora da bolha, e que a mentalidade actual seja mudada. Já viram quem são as vítimas. Vítimas essas que eu sempre menciono. Só lamento por elas, de terem sido condenadas há milhares de anos à servidão dos nossos caprichos e vontades.

Caberá agora a vocês olharem para isso e fazerem o vosso papel de dignificarem uma actividade tão importante e ao mesmo tempo tão banalizada, explorada e abandonada. Quando o medo de abrir-se a caixa de Pandora do mundo dos cães for menor do que a vontade de mudança, irão confirmar que nesta equação os animais são meras peças de xadrez.

Não têm de ser a voz deles, apenas têm de aprender a ouvi-los. Nesse dia, quando a voz humana se calar em prol do que eles tanto nos dizem, haverão mudanças. A voz humana carrega ideologias, a voz dos não humanos mostra a essência e as necessidades naturais que eles tanto precisam. Ouvir e observar. Certamente as ações dos profissionais da área e das autoridades tanto judiciais como políticas fossem diferentes e até prevenidas.

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